As empresas que produzem equipamentos ou projetam instalações para serem aplicadas em ambientes com atmosfera explosiva precisam se atentar às exigências da certificação ATEX.
Seja na indústria petroquímica, de mineração, farmacêutica, alimentícia ou no processamento de grãos, a presença de atmosferas explosivas, como gases, vapores, poeiras combustíveis transforma o ambiente de trabalho em uma área classificada.
Nesses ambientes a certificação ATEX surge não apenas como uma exigência regulatória, mas como o pilar fundamental para garantir a integridade dos operadores e a continuidade operacional das plantas industriais.
O que é a Certificação ATEX e por que ela é fundamental?
O termo ATEX deriva do francês ATmosphères EXplosives e está relacionado ao conjunto de diretivas europeias que regulamenta os equipamentos e sistemas de proteção destinados a utilização em atmosferas potencialmente explosivas.
Uma atmosfera explosiva é formada quando há uma mistura de substâncias inflamáveis na forma de gases, vapores, névoas ou poeiras com o ar, sob condições atmosféricas normais, capaz de propagar a combustão após uma ignição.
Para que ocorra uma explosão, é necessária a coexistência do chamado Triângulo do Fogo, composto por três elementos:
- Combustível: gases, vapores ou poeiras em concentração adequada.
- Comburente: o oxigênio presente no ar.
- Fonte de ignição: faíscas elétricas, superfícies quentes, arcos elétricos ou descargas eletrostáticas.
A certificação ATEX atua diretamente no controle e na eliminação da fonte de ignição, garantindo que o equipamento operante não gere energia térmica ou elétrica suficiente para desencadear um acidente devastador.
Quais foram as primeiras definições da ATEX?
As primeiras diretivas ATEX são datadas de 1976. Mas, suas evoluções foram gradualmente sendo desenvolvidas e implantadas para aumentar a clareza e harmonizar o mercado global de produtos industriais.
Historicamente, a diretiva 94/9/CE orientou os fabricantes por quase duas décadas. No entanto, a partir de 20 de abril de 2016, passou a vigorar obrigatoriamente a diretiva 2014/34/UE, que alinhou os requisitos de colocação de produtos no mercado com o Novo Framework Legislativo da UE.
É importante distinguir os dois pilares normativos ATEX:
Diretiva 1999/92/CE (Diretiva do Operador/Usuário): define as obrigações dos empregadores para proteger os trabalhadores que atuam em ambientes com risco de explosão.
Diretiva 2014/34/UE (Diretiva do Fabricante): regulamenta os requisitos técnicos e de conformidade que os equipamentos e sistemas de proteção devem atender antes de serem comercializados.
Esta nova versão da norma Europeia, a 2014/34/UE tem o objetivo de harmonizar as legislações desenvolvidas entre os países que integram orientados pela norma. As 10 diretivas que ela pretende alinhar são:
- Diretiva relativa aos explosivos de origem civil: Diretiva 93/15 / CEE relativa à harmonização das disposições relativas à colocação no mercado e à fiscalização de explosivos para uso civil;
- Diretiva relativa ao equipamento para utilização em atmosferas explosivas (ATEX): Diretiva 94/9 / CE relativa à aproximação das legislações dos Estados-Membros respeitantes aos equipamentos e aos sistemas de proteção destinados a ser utilizados em atmosferas potencialmente explosivas;
- Diretiva “elevadores”: Diretiva 95/16 / CE relativa à aproximação das legislações dos Estados-Membros respeitantes aos ascensores;
- Diretiva relativa aos equipamentos sob pressão: Diretiva 97/23 / CE relativa à aproximação das legislações dos Estados-Membros respeitantes aos equipamentos sob pressão;
- Diretiva relativa aos instrumentos de medição: Diretiva 2004/22 / CE relativa aos instrumentos de medição;
- Diretiva relativa à compatibilidade eletromagnética (CEM): Diretiva 2004/108 / CE relativa à aproximação das legislações dos Estados-Membros respeitantes à compatibilidade eletromagnética;
- Diretiva relativa à baixa tensão (LVD): Diretiva 2006/95 / CE relativa à harmonização das legislações dos Estados-Membros respeitantes ao material eléctrico destinado a ser utilizado dentro de certos limites de tensão;
- Diretiva relativa aos artigos de pirotecnia: Diretiva 2007/23 / CE relativa à colocação no mercado de artigos de pirotecnia;
- Diretiva relativa aos instrumentos de pesagem não automáticos: Diretiva 2009/23 / CE relativa aos instrumentos de pesagem de funcionamento não automático;
- Diretiva relativa aos recipientes sob pressão simples: Diretiva 2009/105 / CE relativa aos recipientes sob pressão simples.
Classificação de Áreas e Zonas ATEX
Para determinar o tipo de equipamento adequado para cada ambiente, a planta industrial deve passar por um processo de classificação de áreas, que mapeia a probabilidade e a duração da presença de atmosferas explosivas.
Atmosferas por gases, vapores e névoas
- Zona 0: local onde a atmosfera explosiva está presente de forma contínua, por longos períodos ou frequentemente (ex.: interior de tanques ou tubulações).
- Zona 1: local onde a formação de uma atmosfera explosiva é provável de ocorrer em condições normais de operação (ex.: próximo a aberturas de enchimento, bombas e válvulas).
- Zona 2: local onde a formação de uma atmosfera explosiva é improvável de ocorrer em operação normal e, se ocorrer, persistirá apenas por um curto período (ex.: áreas circundantes à Zona 1).
Atmosferas por poeiras combustíveis
Muitas vezes negligenciadas, poeiras de açúcar, farinha, carvão, madeira, alumínio e polímeros representam alto risco de explosão.
- Zona 20: área na qual uma atmosfera explosiva em forma de nuvem de poeira combustível está presente continuamente ou por longos períodos.
- Zona 21: área na qual uma atmosfera explosiva em forma de nuvem de poeira é provável de ocorrer ocasionalmente em operação normal.
- Zona 22: área na qual uma atmosfera explosiva em forma de nuvem de poeira é improvável de ocorrer em operação normal e dura pouco tempo.
Quais os tipos de proteção Ex mais comuns em componentes de automação?
Existem diferentes modos de proteção desenvolvidos para evitar que uma falha elétrica ou mecânica cause ignição. Os mais utilizados na automação industrial incluem:
- Ex d (à prova de explosão / invólucro pressurizado): o equipamento é enclausurado em um invólucro robusto capaz de conter uma explosão interna sem permitir que a chama ou gases quentes se propaguem para o ambiente externo.
- Ex i (segurança intrínseca): um dos métodos mais seguros para instrumentação e sinalização. O circuito é projetado de forma que a energia elétrica e térmica seja rigorosamente limitada, sendo incapaz de gerar faíscas ou aquecimento suficiente para causar ignição, mesmo em condição de falha.
- Ex e (segurança aumentada): aplicada a equipamentos que não produzem arcos ou faíscas em serviço normal. São adotadas medidas construtivas adicionais para evitar temperaturas elevadas e a ocorrência de arcos elétricos.
Cuidados práticos na escolha de cabos, conectores e módulos para áreas classificadas
A integridade do sistema é tão forte quanto o seu elo mais fraco. De nada adianta investir em sensores com segurança intrínseca se as conexões, cabos e módulos de I/O forem especificados incorretamente.
Ao selecionar componentes de conectividade e distribuição para áreas classificadas, considere:
- Grau de Proteção elevado (IP67 / IP68 / IP69K): garante a estanqueidade contra penetração de água, poeira e fluidos agressivos que poderiam degradar contatos e gerar curtos-circuitos.
- Conectores pré-moldados vs. montagem manual: O uso de conectores industriais pré-montados e testados de fábrica elimina o risco de erros humanos na decapagem e fixação dos condutores, garantindo o torque exato exigido pela norma.
- Resistência química e mecânica dos cabos: materiais de revestimento como PUR (Poliuretano) oferecem alta resistência a óleos, produtos químicos e estresse mecânico, prevenindo o desgaste prematuro da isolação.
Certificação ATEX serve somente para equipamentos elétricos?
Não. Inclusive este é um erro comum em projetos industriais: associar os riscos de ignição exclusivamente a componentes elétricos ou eletrônicos. As diretivas ATEX cobrem qualquer equipamento ou instalação que possa atuar como uma fonte de ignição eficaz. Entenda melhor:
Aplicação em componentes mecânicos e plásticos
Atrito térmico entre peças móveis, o aquecimento mecânico de rolamentos, o acúmulo de pressão interna ou até mesmo o atrito de fluídos em tubulações plásticas podem gerar faíscas ou superfícies de alta temperatura. Por isso, atuadores pneumáticos, conexões mecânicas, invólucros de sensores e conectores plásticos também devem estar em conformidade.
Compatibilidade eletromagnética (CEM) e descargas eletrostáticas
A eletricidade estática é uma das maiores causas veladas de ignição em áreas com presença de poeiras ou vapores. O atrito do ar ou de partículas em peças plásticas não condutoras pode gerar o acúmulo de cargas estáticas elevadas. Por isso, as normas ATEX exigem o controle rigoroso da Compatibilidade Eletromagnética (CEM/EMC) e a utilização de materiais que dissipem a eletricidade estática de forma segura para o aterramento.
ATEX, IECEx e INMETRO: Quais as diferenças entre as certificações?
Para máquinas fabricadas no Brasil ou importadas para operação nacional, é fundamental compreender a relação entre as normas internacionais e a legislação local:
| Padrão | Escopo de Atuação | Características Principais |
| ATEX | União Europeia (obrigatório) | Diretiva legal regional europeia. Exige marcação CE + símbolo Ex. |
| IECEx | Global (voluntário) | Esquema de certificação internacional baseado nas normas da Comissão Eletrotécnica Internacional (IEC). |
| INMETRO | Brasil (obrigatório) | A Portaria INMETRO 115/2022 regulamenta os equipamentos para atmosferas explosivas no país. |
Os equipamentos importados com certificação ATEX ou IECEx não podem ser instalados diretamente em áreas classificadas no Brasil sem a devida equivalência ou certificação INMETRO. No entanto, produtos com certificação ATEX/IECEx possuem um processo de homologação local consideravelmente facilitado, uma vez que os ensaios técnicos de laboratório seguem a mesma base normativa da série IEC 60079.
Garanta a segurança e conformidade do seu projeto de automação industrial
Projetar e especificar para atmosferas explosivas exige conhecimento técnico aprofundado e escolha criteriosa de parceiros de automação. Soluções de conectividade robustas reduzem custos de manutenção e garantem total conformidade técnica e segurança operacional para sua planta ou maquinário.
Tem dúvidas sobre como especificar conectores, cabos ou módulos de I/O para áreas classificadas em seus projetos? Entre em contato com a nossa equipe e receba orientação personalizada para a sua necessidade.




